terça-feira, 7 de setembro de 2010

A Verdadeira Interpretação - só com o Messias


O Senhor, o seu Deus levantará do meio dos seus próprios irmãos um profeta como eu; ouçam-no – Deuteronômio 18.15.
Quem foi Moises, se não o homem que estruturou Israel? Tanto as leis civis como as religiosas foram dadas por intermédio dele. Esta passagem se refere claramente ao Messias, e os judeus assim a interpretavam. Para o judeu, a lei tinha duas faces. A primeira era a lei escrita; a outra era a Lei, o espírito e o sentido exato dela que era transcendente. Era algo parecido com “o mundo das idéias” de Platão mas era somente para a Lei. A expectativa para a chegada do messias era também para revelar este caráter da Lei.
É por isso que em João 4, na conversa com a mulher samaritana, no verso 25 a mulher diz “eu sei que o Messias (chamado Cristo) está para vir. Quando ele vier, explicará tudo para nós”. Nos versos anteriores a este versículo, eles estão conversando justamente sobre um assunto religioso (o lugar ideal para se adorar), Jesus diz que o lugar geográfico não importa mais, mas sim a maneira (em espírito e em verdade). Então a mulher diz “eu sei que o messias está para vir, quando ele vier, explicará tudo para nós”. Era algo como: a gente discutindo aqui não vai levar a lugar nenhum porque de qualquer jeito, só o messias sabe exatamente o que a Lei diz, vamos falar de outra coisa enquanto ele não vem. Então Jesus diz “eu sou o Messias!” (verso 26), e o que acabei de falar sobre o lugar da adoração é o sentido da Lei.
Já em Mateus 17, na transfiguração, a fala do Pai é uma referencia à DT 18.21. Pedro propõem que se faça uma tenda para os personagens que aparecem (Moises, Elias e Jesus glorificado) e no verso 5 uma voz diz “este é o meu filho amado em quem me agrado. Ouçam-no!”. Claro que para qualquer judeu que cresceu aprendendo a lei e estava bem familiarizado com o livro de Deuteronômio, essa fala lembra: “O Senhor, o seu Deus levantará do meio dos seus próprios irmãos um profeta como eu; ouçam-no. Esta é uma ratificação tão clara, transparente, específica e objetiva que o próprio Jesus temeu que os judeus a ouvissem antes de sua crucificação (“não contem a ninguém o que vocês viram, até que o Filho do Homem tenha ressuscitado dos mortos”) v. 9. Pois se este fato fosse conhecido pelo povo, o ungiriam rei custe o que custar e certamente não permitiriam a sua crucificação.
E para finalizar, o messias dando o sentido da Lei, está dentro de um discurso (não apenas lá) que chamamos de Sermão do Monte. Como Mateus escreveu para judeus, ele colocou essa coletânea de ensinos de Jesus agrupados. No sermão do monte temos: “ouvistes o que foi dito, eu porem vos digo”. Antes de cada nova interpretação da Lei, que a abrange muito mais. Claro que quer judeu lendo isso somada às profecias cumpridas em Jesus e a afirmação de Mateus 17, será persuadido a aceitar que Jesus é o messias, o profeta profetizado por Moisés em Deuteronômio 18. Pois Moises estruturou o povo de Deus, e disse que viria um profeta igual a ele e que deveria ser ouvido, no sermão do monte, e durante seu ministério, Jesus reestrutura o povo de Deus, não etnocentricamente, mas universalmente. Em Jesus os filhos de Abraão, não são apenas os descendentes de Abraão (MT 3.9) mas qualquer um em qualquer lugar que “mostre frutos de arrependimento” v.8.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Religião e Cidadania

Ed René Kivitz
Igreja não vota. Igreja não faz aliança política. Igreja não apoia candidato. Igreja não se envolve com política partidária. Há pelo menos cinco razões para este posicionamento.
Primeira: o Estado é laico. Igreja e Estado são instituições distintas e autônomas entre si. É inadmissível que, em nome da religião, os cidadãos livres sofram pressões ideológicas. Assim como é deplorável que os religiosos livres sofram pressões ideológicas perpetradas pelo Estado. É incoerente que um Estado de Direito tenha feriados santos, expressões religiosas gravadas em suas cédulas de dinheiro, espaços e recursos públicos loteados entre segmentos religiosos institucionais. É uma vergonha que líderes espirituais emprestem sua credibilidade em questão de fé para servir aos interesses efêmeros e dúbios (em termos de postulados ideológicos e valores morais) da política eleitoral ou eleitoreira.
Segunda: o voto é uma prerrogativa do cidadão. Assim como os clubes de futebol, as organizações não governamentais, as entidades de classe, as associações culturais e as instituições filantrópicas não votam, também a igreja não vota. Quem vota é o cidadão. O cidadão pode ser influenciado, melhor seria, educado, por todos os segmentos organizados da sociedade civil, inclusive a igreja. Mas quem vota é o cidadão.
Terceira: a igreja é um espaço democrático. A igreja é lugar para todos os cidadãos, independentemente de raça, sexo, classe social e, no caso, opção política. A igreja é lugar do vereador de um lado, do deputado de outro lado, e do senador que não sabe de que lado está. A igreja que abraça uma candidatura específica ou faz uma aliança partidária, direta e indiretamente rejeita e marginaliza aqueles dentre seu rebanho que fizeram opções diferentes.
Quarta: a igreja não tem autoridade histórica para se envolver em política. Na verdade, não se trata apenas de uma questão a respeito da igreja cristã, mas de toda e qualquer expressão religiosa institucional. A mistura entre política e religião é responsável pelos maiores males da história da humanidade. Os católicos na Península Ibérica e em toda a Europa Ocidental. Os protestantes na Índia. Os católicos e os protestantes na Irlanda. Os judeus no Oriente Médio. Os islâmicos na Europa e na América. Todos estes cometeram o pior dos crimes: matar em nome de Deus. Saramago disse com propriedade que “as religiões, todas elas, sem exceção, nunca serviram para aproximar e congraçar os homens, que, pelo contrário, foram e continuam a ser causa de sofrimentos inenarráveis, de morticínios, de monstruosas violências físicas e espirituais que constituem um dos mais tenebrosos capítulos da miserável história humana”.
Quinta: o papel social da igreja é profético. Quando o governo acerta a igreja aplaude. Quando o governo erra a igreja denuncia. Quando a autoridade civil cumpre seu papel institucional a igreja acata. Quando a autoridade civil trai seu papel institucional a igreja se rebela. A igreja não está do lado do governo, nem da oposição. A igreja está do lado da justiça.
Todo cristão é também cidadão. Todo cristão deve exercer sua cidadania à luz dos valores do reino de Deus e do melhor e máximo possível da ética cristã, somando forças em todos os processos solidários, e engajado em todos os movimentos de justiça.
Comparecer às urnas é um ato intransferível de cidadania, um direito inalienável que custou caro às gerações do passado recente do Brasil, e uma oportunidade de cooperar, ainda que de maneira mínima, na construção de uma sociedade livre, justa e pacífica.