quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

o valor da vida



Todavia, não tenho a minha vida de valor algum para mim...
Estas palavras foram ditas por Paulo, ao se despedir dos presbíteros da cidade de Éfeso e estão registradas no capitulo 20 de atos.
Aos olhos de alguns, alguém que diga que não tem a própria vida como valiosa para si mesmo pode ser considerado um louco com tendências suicidas, ou um desmotivado para viver.
Porem, o discurso de Paulo não termina com estas palavras, antes, ele prossegue dizendo: desde que...
Ou seja, o que temos aqui não é um homem que desistiu da própria vida e aguarda afoito a primeira oportunidade para morrer, mas um homem que acredita ter encontrado algo que valha a pena de morte. Em outras palavras: não que viver não seja bom, mas é que existe algo maior do que apenas viver, a saber, cumprir o ministério que recebi de Deus, de testemunhar o evangelho.
Paulo considerava mais valioso cumprir a tarefa que lhe foi designada do que a própria vida. E ainda bem que era assim que ele pensava, porque de acordo com o próprio livro de atos, assim que Paulo começa a testemunhar do evangelho, é perseguido. Na sua segunda carta aos coríntios, ele escreve que sofreu naufrágio três vezes, foi preso, surrado, passou fome, etc.
E apesar de tudo isso, ele não desistia, não parava ao mesmo tempo em que não era movido pela esperança de que em breve tudo acabaria. A prioridade dele não era acabar rápido, mas servir enquanto viver.
Isso me lembra a frase dita por Martin Luther king jr: se você não está pronto para morrer por algo, você não está pronto para viver.
E também outra frase cujo autor não lembro agora: gaste a sua vida em algo que valha mais do que ela.
Essas duas frases têm em comum o pensamento de que a vida não é um fim em si mesma, antes, um meio para fazermos algo mais importante.
Viktor Frankl escreve que num campo de concentração, onde a vida é penosa e por causa dos sofrimentos muitas pessoas se mataram, ele identificou que dentre as pessoas que não se matavam (o que acontecia todos os dias), ele percebeu que elas eram movidas por um senso de que deviam cumprir uma missão e se se matassem ali, não a cumpririam[1].
Diante da pergunta: “qual é o sentido da vida?” alguns biólogos (dentre eles, minha ex-professora cujo nome me é esquecido) nos disse uma vez que se exauria em crescer, multiplicar e morrer. Igualzinho aos animais que criamos no nosso quintal ou fazenda ou que vivem selvagens no planeta.
Se essa resposta é amplamente divulgada, não me surpreende o fato de muitas pessoas buscarem a morte, a principio então, alguém estéril já não cumpre sua missão aqui.
Olhando o texto de Atos claramente percebemos que Paulo estava pronto para morrer, mas também que estava pronto para viver. Martin Luther king diz que o segredo para se saber viver é estar pronto para morrer por algo, ou seja, crer tanto em algo até que a capacidade de apostar sua vida naquilo seja atingido (como de fato, ele morreu engajado na sua luta pelos direitos civis) e Paulo tinha isso: a sua fé na ressurreição de Cristo e na sua convocação para o serviço (significado da palavra ministério) o moviam em direção à tribulações, prisões e à morte.
E, deste modo, a pergunta pelo significado da vida encontra sua resposta, pelo exemplo de Paulo: trabalhar para o Reino.
Já é conhecido o fato de que se não nos movermos fisicamente, nossos músculos se atrofiam e adoecemos até a morte. As pessoas que costumam se exercitar regularmente percebem que longe de desperdiçarem suas energias, estão administrando-as da melhor maneira possível, pois, quando precisam, estão sempre dispostos, ao passo que os sedentários, que deviam ter muita energia ‘armazenada’ não encontram a disposição que precisam quando o assunto é fazer algumas flexões ou uma caminhada.
Do mesmo modo, alguém que vive em letargia, ocupado apenas em viver para si mesmo, satisfazendo as próprias necessidades, não encontra eco profundo o suficiente quando a pergunta pelo sentido da vida acontece (se fosse assim, os únicos suicidas do mundo seriam as pessoas pobres que não tem dinheiro para comprar alimento [necessidade física legitima], mas percebemos que muitos ricos também se matam, ou seja, o sentido da vida está além da posição social).
O sentido da vida é encontrado em algo que valha mais do que ela. Paulo não odiava sua vida, antes, ele encontrou algo que valia mais do que ela. Oremos para que nossos ‘irmãos’ que buscam a Deus apenas atrás de benefícios imediatos encontrem esse tesouro escondido que Paulo encontrou e que faz valer a pena gastar a vida toda por ele.


[1] Ele também fala que as pessoas que se sentiam amadas e lidavam com o sofrimento de um modo diferente também estavam entre os sobreviventes ao próprio suicídio. Leia o livro Em busca de Sentido, editora Sinodal.