segunda-feira, 18 de julho de 2011

A Sagrada Presença Divina


“Ele não morreu, Deus estava ao lado dele”. Ouvi esta frase de uma pessoa que, assistindo a tv, viu o relato de um livramento da morte.
Isto mostra que, de acordo com a sabedoria popular, a presença divina é associada apenas aos milagres, no caso, o livramento da morte. Ou seja, Deus estava com fulano = fulano foi livre da morte. De acordo com a lógica matemática, o contrário também é verdadeiro.
Mas a história nos diz o contrário: a não ser que você queira dizer que Deus estava com Hitler, o livrando da morte em cada uma das 15 tentativas de assassinato que ele sofreu por parte do exército alemão?! Ao passo que temos relatos bíblicos de certos poersonagens que não foram livrados da morte, mas estavam com Deus: vejo os céus abertos e o Filho do Homem sentado à direita do Altíssimo. O destino do autor desta frase é conhecido por todos que já leram o capítulo 7 de atos. E do lado de quem Deus estava? Da vítima, que morria ou dos executores, que viviam?
Cabe aqui agora outra pergunta: a presença de Deus está apenas associada ao milagre? É possível encontrar Deus na rotina, no ‘normal’, corriqueiro? O NT nos sugere uma vida com Deus. E vida inclui a rotina, a exceção não ocorrerá todos os dias, mas se ocorrer, se tornará esta, também, em rotina.
Os dias em que nada de especial nos ocorre, mas ainda assim tivemos um bom dia , por que não dizer que tivemos um dia na presença de Deus? Penso que na maior parte dos casos, nem há cogitação da presença d’Ele ou mesmo de Sua existência.
Penso também, ser esta a razão da raridade de pessoas que vive um relacionamento profundo com Deus. Quando se limita Deus apenas ao sobrenatural, ele só tem utilidade em casos últimos, quando a situação sai do controle. Seria algo como: a palavra Deus escrita em um botão vermelho atrás de um vidro, que se localiza logo abaixo de uma placa que diz: em caso de emergência, quebre o vidro e aperte o botão. Também podemos comparar esta situação à um pára-quedas ou mesmo um bote salva-vidas: é bom estar lá, mas é preferível não usar.
Sabendo disto, temos o dever de resgatar o relacionamento diário com Deus. A vontade de orar por se sentir (ou no mínimo, querer se sentir) na presença de Deus. Fazer da oração mais que um recurso a ser utilizado em últimos casos, quando não se há nada mais a fazer.
Termino este artigo desmentindo o mito evangélico que diz: faça o possível que o impossível Deus faz. Em primeiro lugar, você não consegue fazer nada. O que é possível a você fazer que não dependa de certos fatores que podem estar (ou não) ao seu alcance e que foram disponíveis a você pela graça divina? A carta de thiago nos dá esta dica: não diga eu farei, mas eu quero fazer.
Em segundo lugar, isto pode sugerir que a presença e a ação de Deus está restrita ao campo da sobrenaturalidade, o que não é verdade, visto que no NT, Deus encarnado é a maior prova de que Deus quer entrar na vida do homem, e não levar o homem para vida de Deus (não entendendo vida como qualidade, mas como forma, p. ex. Em apocalipse 21 vemos a sociedade divina nos moldes humanos: uma CIDADE! Mas não como a babilônia, mas ainda assim uma cidade). João não relata em apocalipse nenhum sinal de vida artificial, ele não diz: vi pessoas que não tinham pés e por isso não andavam, antes, flutuavam, pois pelo fato de estarem com Deus, não manchavam mais os pés confiando o peso do corpo a esta parte inferior do corpo (aqui é cômico, mas isto realmente existe no imaginário popular que aliás, não tem fundamento bíblico, antes, se assemelha muito às religiões pagãs e mesmo ao conceito religioso da idade média.
Por fim, lemos que Deus se fez homem, um homem-Deus mas um homem inserido na sociedade humana e que, antes do início de Seu ministério buscava o sustento diário através não de práticas obscuras, não fazendo maná cair do céu ou mesmo com qualquer outro milagre, mas como carpinteiro e posso dizer sem medo de errar que este ofício não era algo tido como sobrenatural aos seus contemporâneos.
E o ensino messiânico reunido por Mateus e identificados mais tarde como capítulos 5-7 tem uma mensagem tão prática e despida de sobrenaturalidade como em poucos outros lugares vemos. Jesus não dá ênfase à demônios ou anjos, antes, à ética profissional, familar, etc. e o NT prossegue com cartas endereçadas à comunidades constituídas de seres humanos, não et’s.
Aliás, me parece que Jesus foge desta realidade isolada pela religião da vivência cotidiana e um dos mais vastos exemplos disto é o fato de só sabermos que ele nasceu de uma virgem por que Lucas e Mateus descrevem a história do nascimento, porque em NENHUM momento vemos Jesus fazendo qualquer alusão a este fato, muito menos em discussão contra os fariseus (o que, com certeza agradaria a religião que busca avidamente os milagres e exceções e um Messias que nasça de uma virgem é sempre bem-vindo! Ao passo que um que conquiste a vida como carpinteiro, numa região pobre, com discurso simples e que ande com o povão, é vulgar)
Querendo ou não, é assim que Jesus se apresenta a nós e é esta característica que os autores dos evangelhos (sobretudo o Espírito Santo) quiseram preservar muito bem em seus escritos.
Então, não tente viver uma vida artificial, antes, se relacione com seus amigos, família, colegas de trabalho, etc. Tenha bons relacionamentos e nem ouse pensar que Deus está longe disto pelo fato de você não andar sobre as águas, pois na vida de Davi, um homem segundo o coração de Deus, não vemos a presença constante do sobrenatural (ao passo que fica evidente que o sobrenatural está nas entrelinhas do natural, mas não o contrário) e mesmo assim a bíblia dedica boa parte de 1 samuel, todo 2 samuel, partes de cronicas e vários salmos. Em outras palavras, não se esconda da vida, viva-a intensamente, aproveite as pessoas, sobretudo da melhor maneira possível: de acordo com o amor como guia de nossas atitudes, pois o contrário de amor (se acordo com o divino) é egoísmo e usar as pessoas para se alcançar nossos objetivos e satisfazer nossos desejos não pode ser chamado amor, mas isto é assunto para outro artigo.

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